Dissolve-se ao toque de nossas mãos, aquele algo que, achado, faria da variedade de nossas ambições, sabor para toda a vida. A peça "O Zoológico de Vidro", encenada no Teatro do SESC Anchieta, de autoria do dramaturgo norte americano Tenesse Williams e dirigida por Ulysses Cruz deixou-me esta impressão.
A imagem das tantas cidades que nos passam como folhas suspensas é símbolo máximo da precariedade com que lidamos com nossas mais profundas frustrações. Evola-se, numa emoção continuada, uma estabilidade puramente sonhada, mas concretiza-se, em uma dor aguda, a sutileza com que escondemos de nós a nós, nas mais ardilosas conjecturas, a própria felicidade. Do encontro (sempre conflituoso) de nossas forças essenciais, surgem relações familiares interessadas em postular tal felicidade nas ilusões urdidas individualmente por cada uma das pessoas envolvidas.
Cássia Kiss, esplendorosa no papel de Amanda Wingfield, uma mãe que manipula o futuro dos filhos, Tom (Kiko Mascarenhas) e Laura, num joguete emocional desesperador, molda suas vidas a fim de garantir a ambos, uma vida de sucesso e felicidade. Esconde-se atrás da própria frustração em ter construído, paradoxalmente, uma vida de fracasso e infelicidade. O recurso, lindamente empregado por Ulysses, da reminiscência, remete a um passado relativamente próximo, onde espera-se que, tanto o sonho da ascenção profissional a que obriga o filho, quanto o de um bom casamento a que obriga a filha, possa devolver à família - destroçada pelo abandono de seu marido - a atmosfera estável de que "necessitam" para fortalecer os laços afetivos e assegurar sua dignidade (desde sempre arruinada).
Mas para além disso, o especial da peça - seu liame engenhosamente engendrado - está em que cada um dos três personagens já estão absolutamente perdidos cada qual em seu mundo subjetivamente criado. Amanda, saudosa de seus tempos de mocidade, na Blue Montain, onde pensava subjulgar os mais célebres homens da alta sociedade da época com seu charme e poder de sedução, repete incansavelmente este poder, agora transfigurado na responsabilidade que é governar sua família. Afinal, os casamentos imaginados foram suplantados pela dureza de um matrimônio real com um homem comum e sequioso de aventuras. Abandonada, duplamente, isto é, pelo marido e por si mesma, resta-lhe recriar às custas de uma memória ardilosamente trabalhada, a dignidade que cabe dentro de sua solidão. A fantasia será sempre o remédio eficaz contra a doença de um desapontamento. Tom, semelhantemente ao pai, quer ser, também, um aventureiro, perder-se no destino como quem já reconhece a precariedade do próprio chão. Está sempre em vias de alguma coisa que, de antemão, contradiz as determinações de sua mãe, absolutamente insuportáveis, que lhe exigem uma carreira profissional de sucesso (em um depósito de sapatos), completamente oposta à sua real intenção, que é aventurar-se no mundo. Ele acaba, também, por inscrever-se dentro de sua ilusão, onde o cinema e a bebida são os elementos que permitem a evasão de si para dentro de si. Recria-se, continuamente, a fim de sobreviver, querendo no entando, viver.
Laura, interpretada pela talentosa Karen Coelho, representa, talvez, o mais profundo afogamento subjetivo. Ironicamente, salva-se da morte absoluta ao estabelecer relações esquizofrênicas com seu Zoológico de Vidro, uma coleção de animaizinhos esculpidos em vidro em que projeta todas as instâncias de seu modo de pensar, sentir e existir. Fragilizada com sua deficiência física, uma pequena diferença no comprimento das pernas, tem tão pouca confiança em si que prefere viver uma vida imaginada, a despeito de ser solicitada pela realidade imediata. Em verdade, quando se diz dela que é uma aleijada e que, mancando, guarda um aspecto repulsivo, não é propriamente de seu defeito físico que estão dizendo. Sua beleza é suprimida pelo que é evidenciado: a extrema timidez em decorrência de seu corpo "mutilado" e seu espírito absolutamente fechado em si lhe confere uma espécie de aleijamento, o da própria personalidade.
O quarto personagem, Jim O'Connor, representado por Erom Cordeiro, distoa um tanto dos outros três. Amigo de Tom, é convidado para jantar em sua casa a fim de cumprir um plano pensado por Amanda na ânsia de casar sua filha, ainda solteira aos 23 anos de idade! (Lembremos que a peça se situa na década de 30, na região sul dos Estados Unidos). Aquele, sem saber que Tom tem uma irmã, aceita o convite e sob o jogo sutil de Amanda, acaba por aproximar-se de Laura que o reconhece como "o único homem por quem já nutriu algum sentimento". Sim, Jim estudou na mesma escola que Laura e passou, no entanto, a vida toda sem saber que ela era afetada por ele a ponto de ter guardado, após seis anos, o álbum em que ele figura como cantor de uma opereta encenada por ele naqueles tempos.
O caminho de Jim é curioso. Nos tempos de escola, ele era o mais vivaz dos alunos. Sempre alegre, cultivador dos próprios sonhos e, em certa medida, realizador deles. Foi uma espécie de líder modelar para os outros alunos, sempre cercado de amigos e de garotas, enfim, o tipo mais popular. Absolutamente promissor, deparou-se, porém, após sua formatura, com a inexorabilidade da realidade exterior onde parece de nada ter valido nem sua vivacidade, nem seu esplendor de espírito. Acabou indo trabalhar no mesmo depósito de Tom, se bem que num cargo ligeiramente superior.
Após o emocionante encontro entre Laura e Jim, num ambiente forçosamente romantizado, mas por forças exteriores a eles (o corte de luz por falta de pagamento, que os obriga a enxergarem-se através da luz de velas, a tempestade e os relâmpagos que se insurgem e parecem corroborar para sua aproximação, o próprio ardil de Amanda que os obrigou a se encontrarem), nos deixa estarrecidos e frustrados. A conversa que se inicia tímida, no chão, guardando um caráter exageradamente formal, vai tomando corpo por meio da espontaneidade de Jim que acaba por fazer aflorar em Laura, uma liberdade e uma confiança que lhes permite recobrar um passado estranho a ambos, pois Jim já nem se recordava daquela que apelidou de "Rosas Azuis" nos tempos de escola, nem Laura absolutamente sonhava em reencontrar aquele que fora seu único amor na vida, tão acostumada estava em tecer sua existência separada da realidade comum aos outros.
À medida que ela vai recuperando sua confiança, ao tempo em que Jim a chama a isso elogiando sua beleza incomum, ela se abre a ponto de (e somente uma mulher há de saber exatamente o alcance desse gesto) permitir sua entrada na mais profunda intimidade, mostrando-lhe um de seus animaizinhos. O primeiro da coleção. Um unicórnio de vidro que simboliza a ela própria. Um cavalo diferente dos outros cavalos. Uma criatura imaginária, mitológica, que só pode encontrar lugar em se mantendo no âmbito de uma história inventada. Jim adentra seu mundo e enlevado, também, a convida para uma dança esplêndida, ao som de um tango ouvido ao longe. Eles giram, belamente, entreolhando-se sob a luz das velas, num arrebatamento. Não pude deixar de emocionar-me bastante neste ponto da peça, que me pareceu o ponto alto, pois que o amor - ansiado ao longo de toda uma vida apartada da realidade comum, enfim estabeceu-se de modo inimaginado. Esta era a realidade tangível.
O drama, no entanto, nos leva a ouvir a estrondosa ruína deste enlace efêmero. Durante a dança, eles acabam esbarrando, escuro que estava, na mesa onde haviam colocado o unicórnio. Quebram-lhe o chifre. Exatamente aquilo que o distinguia. Aparentemente, o choque seria definidor para o destino feliz dos jovens, já que Laura, segurando nas mãos o unicórnio afirma não ter problema, pois agora ele (ela) já não seria estranho, defeituoso, mas um igual dentre os outros cavalos. Radiantes, não evitam o inevitável: o beijo.
Após, porém, sob grande constrangimento, Jim a informa que existe uma outra mulher à sua espera. Eis a estrondosa ruína. Laura imediatamente retorna para dentro de sua timidez, para dentro de sua prisão subjetiva. Jim, escapa, agradecendo a noite que teve, o belo jantar, instando para que Laura não esqueça seus conselhos. Amanda, desolada, vê seus sonhos, também, desmoronados. Tom, que dependia daquele casamento forjado para ganhar sua própria liberdade, decide-se ir embora, finalmente, às suas aventuras.
Um instante é sempre um instante intensivo. Será, então, a soma desses instantes intensivos que hão de configurar nossa própria existência? O tempo, este também evola-se, como bem o diz Tom, "o tempo é a maior distância entre dois lugares". As folhas hão de passar por nós, na forma de cidades, sonhos, projeções, frustrações, desejos, felicidades clandestinas, aventuras; e a crença arraigada de que mais vale viver uma vida previamente arranjada, ilegítima, sejam quais sejam suas causas, parece resistir em deixar que, sob a luz do próprio olhar, legitimemos, nós mesmos, enfim, nossa própria vida.