12.6.09

A Enfermidade do Mundo

Talvez com sorte eu consiga enxergar o céu cravejado de estrelas e de dentro da imensa admiração que certamente me tomaria, passasse a contá-las menos importando sua quantidade, mas lançando a atenção à intensidade de suas luzes. Os meus olhos já não são os mesmos; nem o são os meios que me servem a memória. Não sendo os mesmos os olhos e os meios, poderia aceder à imaginação o quanto me conviesse.

Mas não. A realidade brilha como fogo incerto, no entanto, constante. Ela há de moldar os costumes de nosso existir, mesmo que para isso se ofereça como uma deusa afetuosa nos convencendo de que somos nós, em verdade, quem alimentamos o fogo da mesmice e da injustiça, das tantas crueldades e perturbações de que nos valemos para alcançar a felicidade. Garantiria, assim, tal deusa, a gratuidade de nosso engenho, de nossa arte? Só que a deusa não é deusa, é deus. Acometido pela patologia do homem, insta para que a falsidade ofereça-se em sacrifício para almejarmos o fim glorioso de um paraíso cheio de vigor e estabilidade.

O mundo está ferido de artifícios convictos, está cheio da convicção morosa de um deus irreal. Assim, prometemos – de nós a nós – sondar a vida como quem sonda a um delito, a um ato de resistência! Nos empolgamos em nossa vigilância e atingimos um grau máximo da histeria movente como quem retrata imperiosamente as festas mais fantásticas que ora promovemos. O instante em que me acho é de uma febre anunciadora da enfermidade do mundo. Seremos feras em cativeiro?

28.5.09

Movente

À Ana Garbin,
O que pode o amor em seu oferecimento? Entre o nível que separa a morte do profundo abismo da inexorabilidade, emerge uma tal força humana que é sua grandiosidade e seu desespero. Da dimensão dos nossos afetos, eis que somos como atravessados por esta força que não é nossa, mas que insiste em nós como que constituindo o que alguns sentem como presunção soberba, mas outros a sentem como liberdade. O que distingue esta decisão? Que histórias poderiam ser escritas com a tinta descurada de qualquer posse, se sabemos a inviabilidade de sua posse? Que momentos, diferentemente dispostos poderiam, por sua intensidade, descerrar em nós as vozes tremeluzentes de nossos corações a produzirem um canto natural daqueles que se sabem filhos da terra, a cantá-la em seus dias, em suas noites?

Eis o peso desta disritmia, o esplendor desta discordância! É que no ato mesmo em que padecemos a finitude é que nos sabemos eternos. A ouvirá quem, pleno de sentido, oferece-se em belos poemas que são a vida em movimento; calar-se-ão os que, cheios da obscuridade dos nossos tempos, reclamam para junto de si as palavras que ecoam de nossa infância perene, sem recuperar a própria originalidade com a qual iludimos nosso verbo; sem reconstruir-se na emergência mesma desta teia viva que tecemos com o poder de nossos dedos. O que pode o amor, em seu oferecimento, senão aquilo que é mesmo sua potência, sua força? . . .

30.3.09

O Menino


Essa historieta é dedicada a todos aqueles que perseveram em acreditar na vida, por mais que esta nos pareça estranha a nós mesmos, e como eternas crianças, jamais se permitirão iludir um mistério melhor que o próprio desvelamento da vida...


"É preciso ver e enxergar", disse a mãe, com o ar de quem sabia das coisas. O menino desentendeu e figurou-se como uma espécie de burrinho que, baixando as orelhas por força de sua natureza, devia era seguir seu caminho comendo capim baixo.

Não era mais uma criança e no entanto estava muito distante da idade adulta. Gostava de brincar de carrinho de rolemã. Mas desde que se mudou para aquela rua onde ninguém parecia gostar de brincar, amuou em seu canto e ficou mais é pensativo. Seu passatempo preferido era, nos dias de chuva, ficar olhando as gotinhas escorrendo pela janela, como se fossem cavalos de corrida. Apostava em qual chegaria primeiro ao ponto de chegada e iludia uma narração emocionante. Ria mesmo era quando as gotinhas, cada qual imiscuindo-se em uma irregularidade do vidro, chocavam-se, ou antes, mesclavam-se, tornando-se em um cavalo maior e mais rápido, porque mais pesado.

Achava mesmo engraçado uma coisa pesada ganhar mais velocidade. Pensava que a leveza era uma característica das coisas rápidas, como a lepidez de uma lebre, o vagar de um beija-flor, o salto sobre o muro. Mas não. A gota pesada que ganhava mais velocidade à medida que descia pelo vidro era absolutamente espantosa.

"Sai da janela, menino", a mãe sempre gritava. "Sai da janela que está chovendo"! "Mas se é por isso mesmo que estou aqui"! pensava consigo. "Chatice"! Levantava-se, obediente, e ia lá buscar o que comer na cozinha. Enquanto mastigava um pedaço de bolo de chocolate, observava a mãe lavando a louça. "Mãe, por que o mundo é assim, pesado"? Ela desentendia. "Como assim, filho"? "Assim, pesado. Como se fosse um monte de gotinhas que se juntassem e caíssem bem rápido"! A mãe pescava alguma resposta entre um copo e um prato. "Não sei te dizer bem. Mas acho que é assim porque Deus quis". "Ahn".

"Mas mãe". "Que é"? "Às vezes fico sonhando que a gente está correndo muito para pegar o ônibus da escola, mas quanto mais a gente corre, mais longe o ônibus vai". "E o que tem isso, filho"? "Não sei. Só que fico com a sensação de que o mundo é assim, pesado". A mãe desesperava-se. Apertava-se o coração e fazia grande esforço para segurar a lágrima que, à porta, pronta a percorrer a face, bastando mais um pouquinho, inundaria seu mundo de lembranças dolorosas. Rezava, consigo, para que calasse, para que não perguntasse. "Menino, vai brincar lá fora, a chuva já parou". "Tá bem".

Lá na rua era o deserto. Nesse horário todo mundo estava ou trabalhando ou na escola ou em algum lugar que não era ali. Ele olhava o movimento do vento a balançar os galhos mais altos das árvores. "Olha, o pássaro azul"! Via aquele pássaro com frequência. Não atinava, ainda, porém, que ele aparecia sempre após a chuva. Ficava ali, sorrindo baixinho e admirando aquele animalzinho incrivelmente belo. Sentava na beira da calçada e botava a cabecinha a imaginar coisas... "será que seria se eu pudesse voar"? Ria de seu próprio corpo levantando vôo, ele batendo os braços, rapidinho, para ter força e subir, subir, subir... "Ia ser bem bom", pensava.

Recostou-se no tronco da árvore a admirar mais de perto o pássaro. Mirou, mirou, mirou, até que dormiu. Sonhava de novo que estava correndo atrás do ônibus da escola, ele e sua mãe. Corriam rápido, mais rápido que podiam, muito mesmo, mas cada vez mais o ônibis se afastava. E quando o ônibus dobrava a esquina e o menino percebia que ia perder, vinha aquela sensação de peso que o fazia, ofegante, ir parando os passos até que em meio à rua, já sozinho, sem sua mãe, parava de todo, ajoelhava-se e acordava.

"Filho. Está dormindo na rua, filho! Vem pra dentro, vem". Ele acompanhava a mãe, sem saber direito se era ainda o sonho ou se já havia dormido de novo.

"Mãe, o pai volta"? ele perguntava.

"É preciso ver e enxergar, meu fillho, é preciso ver e enxergar"...


23.3.09

Um Sonho

...e porque existe um encantamento contínuo com a vida, e este anseio movente que nos põe em vistas da plenitude, nos movemos.
Ele acordou mais uma manhã. Olhou acima da janela, como faz todos os dias. Como o dia estava no começo, o céu, preguiçoso, escondia o seu azul detrás dos lençóis de nuvens. A árvore que sobrevive em frente à sua casa volvia as folhas numa conversa animada com o vento. Este soprava leve, quase um espírito sutil, reconhecendo sua felicidade naquilo que animava.
Coçou a cabeça num sono. Espreguiçou-se e ergueu meio corpo sobre a cama, repetindo seu mantra diário: "que meu desejo, hoje, seja, e sempre, a vida". Via a escuridão desmanchar-se, lentamente, sugada pela manhã que nascia, e dispôs-se a, de pé, procurar seus óculos em meio à desorganização do quarto. Encontrou-o sobre um livro que dormitava debaixo da cama. Agora lembrava, pegara no sono quando lia esse livro e acabou esquecendo-o ali.
A memória, então, trouxe de volta a noite passada. Recordou que desistiu da leitura justamente no ponto em que desentendia o motivo da luta encerrada em nosso próprio corpo, que é o movimento natural do homem em busca do saber. Tirara os óculos, fechara o livro e colocara ambos debaixo da cama. Tudo o que quis foi dormir. Sonhou um jardim em que era cercado de flores e plantas das mais belas espécies e das mais variadas cores e formas... respirava o ar vago daquela plenitude e sorria um sorriso de paz. Mas chovia muito, sem molhá-lo.
Agora, acordado, desentendia. Que saber era esse? Quis pegar o livro, reler aquela passagem. Hesitante, sentia um medo esquisito, como que tendo descoberto a chave de sua inquietude, tudo deixasse de fazer, então, sentido. Não considerava a hipótese de, desvendado o mistério, aí é que haveria algum sentido. Tampouco outra, a de que não houvesse mesmo sentido.
Balançou a cabeça, negativamente. Não posso! Sentou-se na cama, como se as pernas falhassem sua função.
Por trás de si o espetáculo da manhã se abria. O Sol já demonstrava seu apreço pela Terra e aquecia, mansamente, sua superfície. A luz vinda da janela, iluminou o espelho do guarda-roupa, ofuscando sua vista. Ao abrir os olhos o quarto já não era. Estava novamente no jardim das belas flores e da chuva que chovia sem molhar.

28.2.09

O Zoológico de Vidro

Dissolve-se ao toque de nossas mãos, aquele algo que, achado, faria da variedade de nossas ambições, sabor para toda a vida. A peça "O Zoológico de Vidro", encenada no Teatro do SESC Anchieta, de autoria do dramaturgo norte americano Tenesse Williams e dirigida por Ulysses Cruz deixou-me esta impressão.

A imagem das tantas cidades que nos passam como folhas suspensas é símbolo máximo da precariedade com que lidamos com nossas mais profundas frustrações. Evola-se, numa emoção continuada, uma estabilidade puramente sonhada, mas concretiza-se, em uma dor aguda, a sutileza com que escondemos de nós a nós, nas mais ardilosas conjecturas, a própria felicidade. Do encontro (sempre conflituoso) de nossas forças essenciais, surgem relações familiares interessadas em postular tal felicidade nas ilusões urdidas individualmente por cada uma das pessoas envolvidas.

Cássia Kiss, esplendorosa no papel de Amanda Wingfield, uma mãe que manipula o futuro dos filhos, Tom (Kiko Mascarenhas) e Laura, num joguete emocional desesperador, molda suas vidas a fim de garantir a ambos, uma vida de sucesso e felicidade. Esconde-se atrás da própria frustração em ter construído, paradoxalmente, uma vida de fracasso e infelicidade. O recurso, lindamente empregado por Ulysses, da reminiscência, remete a um passado relativamente próximo, onde espera-se que, tanto o sonho da ascenção profissional a que obriga o filho, quanto o de um bom casamento a que obriga a filha, possa devolver à família - destroçada pelo abandono de seu marido - a atmosfera estável de que "necessitam" para fortalecer os laços afetivos e assegurar sua dignidade (desde sempre arruinada).

Mas para além disso, o especial da peça - seu liame engenhosamente engendrado - está em que cada um dos três personagens já estão absolutamente perdidos cada qual em seu mundo subjetivamente criado. Amanda, saudosa de seus tempos de mocidade, na Blue Montain, onde pensava subjulgar os mais célebres homens da alta sociedade da época com seu charme e poder de sedução, repete incansavelmente este poder, agora transfigurado na responsabilidade que é governar sua família. Afinal, os casamentos imaginados foram suplantados pela dureza de um matrimônio real com um homem comum e sequioso de aventuras. Abandonada, duplamente, isto é, pelo marido e por si mesma, resta-lhe recriar às custas de uma memória ardilosamente trabalhada, a dignidade que cabe dentro de sua solidão. A fantasia será sempre o remédio eficaz contra a doença de um desapontamento. Tom, semelhantemente ao pai, quer ser, também, um aventureiro, perder-se no destino como quem já reconhece a precariedade do próprio chão. Está sempre em vias de alguma coisa que, de antemão, contradiz as determinações de sua mãe, absolutamente insuportáveis, que lhe exigem uma carreira profissional de sucesso (em um depósito de sapatos), completamente oposta à sua real intenção, que é aventurar-se no mundo. Ele acaba, também, por inscrever-se dentro de sua ilusão, onde o cinema e a bebida são os elementos que permitem a evasão de si para dentro de si. Recria-se, continuamente, a fim de sobreviver, querendo no entando, viver.

Laura, interpretada pela talentosa Karen Coelho, representa, talvez, o mais profundo afogamento subjetivo. Ironicamente, salva-se da morte absoluta ao estabelecer relações esquizofrênicas com seu Zoológico de Vidro, uma coleção de animaizinhos esculpidos em vidro em que projeta todas as instâncias de seu modo de pensar, sentir e existir. Fragilizada com sua deficiência física, uma pequena diferença no comprimento das pernas, tem tão pouca confiança em si que prefere viver uma vida imaginada, a despeito de ser solicitada pela realidade imediata. Em verdade, quando se diz dela que é uma aleijada e que, mancando, guarda um aspecto repulsivo, não é propriamente de seu defeito físico que estão dizendo. Sua beleza é suprimida pelo que é evidenciado: a extrema timidez em decorrência de seu corpo "mutilado" e seu espírito absolutamente fechado em si lhe confere uma espécie de aleijamento, o da própria personalidade.

O quarto personagem, Jim O'Connor, representado por Erom Cordeiro, distoa um tanto dos outros três. Amigo de Tom, é convidado para jantar em sua casa a fim de cumprir um plano pensado por Amanda na ânsia de casar sua filha, ainda solteira aos 23 anos de idade! (Lembremos que a peça se situa na década de 30, na região sul dos Estados Unidos). Aquele, sem saber que Tom tem uma irmã, aceita o convite e sob o jogo sutil de Amanda, acaba por aproximar-se de Laura que o reconhece como "o único homem por quem já nutriu algum sentimento". Sim, Jim estudou na mesma escola que Laura e passou, no entanto, a vida toda sem saber que ela era afetada por ele a ponto de ter guardado, após seis anos, o álbum em que ele figura como cantor de uma opereta encenada por ele naqueles tempos.

O caminho de Jim é curioso. Nos tempos de escola, ele era o mais vivaz dos alunos. Sempre alegre, cultivador dos próprios sonhos e, em certa medida, realizador deles. Foi uma espécie de líder modelar para os outros alunos, sempre cercado de amigos e de garotas, enfim, o tipo mais popular. Absolutamente promissor, deparou-se, porém, após sua formatura, com a inexorabilidade da realidade exterior onde parece de nada ter valido nem sua vivacidade, nem seu esplendor de espírito. Acabou indo trabalhar no mesmo depósito de Tom, se bem que num cargo ligeiramente superior.

Após o emocionante encontro entre Laura e Jim, num ambiente forçosamente romantizado, mas por forças exteriores a eles (o corte de luz por falta de pagamento, que os obriga a enxergarem-se através da luz de velas, a tempestade e os relâmpagos que se insurgem e parecem corroborar para sua aproximação, o próprio ardil de Amanda que os obrigou a se encontrarem), nos deixa estarrecidos e frustrados. A conversa que se inicia tímida, no chão, guardando um caráter exageradamente formal, vai tomando corpo por meio da espontaneidade de Jim que acaba por fazer aflorar em Laura, uma liberdade e uma confiança que lhes permite recobrar um passado estranho a ambos, pois Jim já nem se recordava daquela que apelidou de "Rosas Azuis" nos tempos de escola, nem Laura absolutamente sonhava em reencontrar aquele que fora seu único amor na vida, tão acostumada estava em tecer sua existência separada da realidade comum aos outros.

À medida que ela vai recuperando sua confiança, ao tempo em que Jim a chama a isso elogiando sua beleza incomum, ela se abre a ponto de (e somente uma mulher há de saber exatamente o alcance desse gesto) permitir sua entrada na mais profunda intimidade, mostrando-lhe um de seus animaizinhos. O primeiro da coleção. Um unicórnio de vidro que simboliza a ela própria. Um cavalo diferente dos outros cavalos. Uma criatura imaginária, mitológica, que só pode encontrar lugar em se mantendo no âmbito de uma história inventada. Jim adentra seu mundo e enlevado, também, a convida para uma dança esplêndida, ao som de um tango ouvido ao longe. Eles giram, belamente, entreolhando-se sob a luz das velas, num arrebatamento. Não pude deixar de emocionar-me bastante neste ponto da peça, que me pareceu o ponto alto, pois que o amor - ansiado ao longo de toda uma vida apartada da realidade comum, enfim estabeceu-se de modo inimaginado. Esta era a realidade tangível.

O drama, no entanto, nos leva a ouvir a estrondosa ruína deste enlace efêmero. Durante a dança, eles acabam esbarrando, escuro que estava, na mesa onde haviam colocado o unicórnio. Quebram-lhe o chifre. Exatamente aquilo que o distinguia. Aparentemente, o choque seria definidor para o destino feliz dos jovens, já que Laura, segurando nas mãos o unicórnio afirma não ter problema, pois agora ele (ela) já não seria estranho, defeituoso, mas um igual dentre os outros cavalos. Radiantes, não evitam o inevitável: o beijo.

Após, porém, sob grande constrangimento, Jim a informa que existe uma outra mulher à sua espera. Eis a estrondosa ruína. Laura imediatamente retorna para dentro de sua timidez, para dentro de sua prisão subjetiva. Jim, escapa, agradecendo a noite que teve, o belo jantar, instando para que Laura não esqueça seus conselhos. Amanda, desolada, vê seus sonhos, também, desmoronados. Tom, que dependia daquele casamento forjado para ganhar sua própria liberdade, decide-se ir embora, finalmente, às suas aventuras.

Um instante é sempre um instante intensivo. Será, então, a soma desses instantes intensivos que hão de configurar nossa própria existência? O tempo, este também evola-se, como bem o diz Tom, "o tempo é a maior distância entre dois lugares". As folhas hão de passar por nós, na forma de cidades, sonhos, projeções, frustrações, desejos, felicidades clandestinas, aventuras; e a crença arraigada de que mais vale viver uma vida previamente arranjada, ilegítima, sejam quais sejam suas causas, parece resistir em deixar que, sob a luz do próprio olhar, legitimemos, nós mesmos, enfim, nossa própria vida.

23.2.09

Um Novo Olhar?

Há momentos especiais em nossas vidas. Momentos em que vale mais a intensidade com que os vivenciamos do que a anunciação de seu sentido lógico ou ontológico. Afora o limite intrínseco ao ato de deduzir da experiência algum sentido que corrobore com nossa arraigada forma de vida moderna, em que a felicidade parece ser medida pela quantidade de instantes repetidamente transcendentes ou pseudo-transcendentes, há nisso um algo de reacionário.


Digo isso do lugar em que me encontro atualmente. Os que me conhecem sabem que sou estudante de filosofia. E mesmo os que têm pouco envolvimento com esse modo de existência, quero dizer, com o que ele traz de rigor conceitual, de distinção, de precisão das demosntrações sabem que tal exigência em dado momento embota de tal forma nossa percepção e capacidade de envolver-se que, contraditoriamente, concebemos o mundo analiticamente, perdendo talvez o que há de intenso e afetuoso.


Quero crer que o exercício filosófico deve servir para que alcancemos um grau de profundidade em nossas relações que prescinde de explicações ulteriores sobre como o alcançamos. Ao menos as explicações estritamente lógicas. Pois bem, dos incontáveis encontros memoráveis que me constituem, tenho aprendido a retirar esta intensidade que me refiro. Dos grandes gênios que nos legaram um certo conhecimento sobre a natureza humana, será Espinosa aquele que me tem tocado continuamente, a despertar em mim um novo modo de ver, sentir e pensar o mundo.


Desde o começo deste ano, tenho exercitado um novo olhar sobre o mundo. Creio mesmo ser necessário este exercício por estarmos ainda inacreditavemente presos ao paradigma cartesiano, mecanicista, que se fecha em explicações aparentemente plenas das relações das partes com o todo que estas constituem. Assim, a realidade se assemelha a algo pronto, acabado, passível apenas da constatação de que as partes, analisadas separadamente, preenchem ou não certas condições dadas previamente, e a partir disso, podemos, com grande segurança, estando separados, não envolvidos, determinarmos o que seja bom e o que seja mal para a manutenção desta realidade. Este procedimento me parece, hoje, altamente temerário.


Ora, aceder a um princípio transcendente que nos diz a priori sobre o sentido de toda a realidade é uma presunção da qual não posso compartilhar. Simplesmente porque seria preciso, para isso, possuir uma visão sinóptica, uma intuição que me revelasse a cada encontro, sua concomitância com essa noção transcendente que subjaz à realidade do mundo. Mas é possível esta visão? É possível, hoje, a consciência de que a natureza não obedece ao nosso desejo de perfeição, mas que - pelo contrário - como seres naturais somos determinados a agir de tal ou tal maneira? O que significa ser livre?


2.2.09

Aniversário

Amanhece o dia sobre os meus olhos, tão lentamente, como fosse um véu negro a deslizar-se, revelando aos poucos a beleza azul de um céu novo, de um novo dia. Olho cada ponto do espaço através da janela e me surpreendo.

Hoje é meu aniversário. O último ano na casa dos vinte! O começo de mais um ciclo. Felicito-me por perceber que o tempo passa, deixando as marcas em meu rosto, em meu corpo, em minha barba. Sondo os ares com meus sentidos, cheiro o vento, sinto as cores, provo o mar; tateio, ainda no escuro da madrugada, meu passado e as tantas alegrias que me compõem. Agradeço aos céus, ao deus, à deusa, e reverencio a vida por dar-se toda a mim, com tudo o que ela é, naturalmente. Este verão é meu.

Com a deliciosa expectativa infantil que antecede o começo das aulas, preparo-me. Coincidentemente, hoje, no dia de meu aniversário de vinte e nove anos, sob o poder de Saturno em seu retorno, recomeço minhas aulas. Percebo o tremor em meu corpo, a ansiedade, as projeções, o reencontro de minhas amigas e meus amigos. Tento fazer as coisas sem pressa, como querendo absorver cada emoção, cada pensamento, cada revolução em mim. Sinto-me tão vivo! Ao mesmo tempo, quero comandar o tempo, acelerá-lo para que chegue o grande momento de meu retorno. Atrasá-lo, para que eu aproveite cada imagem sonhada. Pará-lo em instantes essenciais, gravando os beijos e os abraços que desejo. Após um rápido café, enfim, saio.

A rua me acompanha sorridente. Passa das seis e quarenta e cinco da manhã e as nuvens esparsas vão se abrindo, num parabéns. Sorrio enquanto ando, caminho leve, revelo o novo. No ônibus, leio Nietzsche, impressionantemente vigoroso em suas críticas, demasiadamente chato em suas considerações. Ao menos é o que acho hoje, que me sinto humano, demasiadamente humano. É curioso como o Centro fica mais glamouroso de manhã cedinho, com os trabalhos apenas começando. Os prédios vão acordando, e os homens e suas pernas vão tentando, à revelia de seu sono e cansaço, apressar o andamento do tempo e do comércio. Mas todas as lojas ainda são fechadas. Melhor assim. Sinto-me mais livre para captar os movimentos da arquitetura da cidade.

Desço na Praça Ramos. Atravesso o viaduto do chá mirando de revés, o Teatro Municipal, suspirando em alegrias por, após quase um mês inteiro, ter me privado de passar por aqui. Saudades... O pouco trânsito de veículos me permite andar bem em meio à rua. Assim, a liberdade se oferece e a visão muda – anoto na memória um passeio semelhante em meio à Paulista. Dobro a Líbero Badaró e já vislumbro o prédio da Faculdade, suas janelas ogivais, suas bandeiras, sua atmosfera há tanto ansiada. Eis o meu retorno. Ao tocar a calçada do Largo, os sinos do Mosteiro tocam. São sete e quinze. Uma badalada, apenas. Basta. Estou convidado a entrar.

26.1.09

A amizade

Acordei assim, cansado. Como se o dia não valesse por si. É que o sol pela janela entrara, despertando-me de um sonho que há muito planejei sonhar... Mas a vida é isto mesmo, um constante acordar de sonhos planejados. O melhor de tudo é sonhar o instante.
Conforme as horas, sabendo de antemão do encontro que me esperava, preparei meu café, reli algumas notícias velhas... rumores de guerras, principalmente, era o que assolava a terra. Os poderosos estão ávidos! Pois novidades parecem estar se formando. Assisti desenhos animados, para acalmar os nervos e depois do banho, saí.
Há tempos nisto reflito. Existem momentos tão especialmente engendrados por forças enigmáticas que somente ao vivê-los damo-nos conta de que, à espreita, vive um daimon a nos ditar caminhos. Assim foi que, transmutado em paisagens, tal demônio apareceu a mim durante o trajeto há muito esquecido, propositadamente esquecido, como um passado melancolicamente presente e atualizado na lembrança de dias mais... plenos? Talvez. Foge-me a palavra certa, redonda, perfeita para dizer a grandeza dos sorrisos dispensados, antes, transformados, agora, numa espécie de assombramento causado pelo vazio da ausência.
Caminhei pela Avenida Pompéia, nova casa, novo rumo, até o ponto do õnibus a esperar aquele que me levasse ao encontro marcado. Após subir, mirei todas as caras tão distintas das pessoas que lá estavam, a procurar um algo perdido. Nenhuma moça de olhos verdes se apresentou, nenhum olhar de eternidade Sentei, então, solitário, na poltrona e comecei a folhear o grande livro de Homero, encantando-me com as batalhas outrora vividas por heróis imortalizados pela Poesia. O demônio instava para que olhasse as casas tão bem feitas, os bares nunca visitados, o café que me trazia à mente os melhores beijos já beijados... tudo passado, como agora, visto de longe, um passado tão presente que me comovia.
Chegado à estação Vila Madalena, desci, caminhei até uma loja de bebidas e comprei um sorvete de limão a ver se me refrescava deste calor súbito que me penetrava a pele. É verdade o que dizem sobre o verão. Paira sobre nossas cabeças como um vento que em nada refresca, mas que muito nos queima a cabeça. E a cidade me acompanhava. Dentro do trem, ansiava o encontro, revendo, a um tempo, os melhores trecho da Ilíada, e confiando que a cada estação passada, uma batalha era vencida. Sim, eu era Ájax, Telamônio, o grande guerreiro, lançando minha lança, grande-sombra, por sobre os desafortunados troianos, mortos um a um, como a memórias velhas agarradas às minhas coxas.
Ao chegar à estação Imigrantes, visitei um lugar desconhecido, atentando às novidades bem postas sob meus olhos. Construções repetidas, fábricas enfeiando o horizonte, pistas e avenidas movimentadas e o cheiro característico das marginais. Quão longe chega este fedor? Mas o belo disso tudo era o descobrimento de um aspecto abandonado. Como numa usina de reciclagem, sondei em mim o lixo que necessitava transmutar em algo desejável, separei-o e ido, a encontrei.

Esta é minha irmã. A grande aquariana que me vê. Ao encontro, nos abraçamos e conversamos sobre novidades. O que tem feito. Como tem passado. Que tem lido. Tanta saudade! Em um minuto nos pomos a par de nossas intranquilas convicções, fomentamos projetos de artistas incompreendidos, mas felizes estamos. Caminhamos até sua casa, a casa dos sonhos! Sua biblioteca, seus filmes, seus trabalhos, sua cozinha... ah, bolinhos de chuva que antecedem a tempestade! (obrigado, Marlene!) Delícia! Incrível! O ateliê onde cria-se mundos no mundo e sua presença, grande, espaçosa em meu coração... Depois, pizza, whisky e Pink Floyd, a maior banda do mundo, combinação perfeita para coroar a noite que, diferentemente do dia, sempre estável, é superior, por sua instabilidade e silêncio.
O demônio, deixado de fora, aguardava minha saída, angustiado, sem dúvida. Decerto ele inveja a vitória da amizade sobre a melancolia.

19.1.09

O Duque e as Moscas.:

O famoso Duque de Caxias está ali, como a espantar as moscas que residem à Praça Princesa Isabel. Imponente como sempre, ergue em prumo sua espada guerreira e se não fosse o bronze à garganta decerto gritaria alguns impropérios militares aos insetos lá debaixo. Observando a sonhada altura de onde governa, ah, confesso que sinto a inveja dos civis. Mas logo passa. Ao perceber que minha carne anda mais viva e que às pedras hei legado um olhar displicente, continuo meu caminho pela grande Avenida até às portas da estação Júlio Prestes.

Ali me quedo, em sonhos de um passado não vivido, em viagens emocionantes pela Estrada de Ferro Sorocabana! Mas o jardinzinho dá suporte aos trilhos que, de lado a lado, levam a lugar nenhum. Desmotivei-me na caminhada. Sentei-me frente à grama alta a observar um tanto o movimento dos homens. À direita, tomavam um banho de gato dois moradores de rua munidos de galões de 20 litros cheios de água amarelenta, (sabe-se lá de onde a tiraram). A fortuna é assim mesmo, a uns cheios de esperanças, banho quente e belo jantar, mas aos desesperançados um rápido molhar das partes e, luta! Vamos à vida, que é preciso comer!

À esquerda, algumas crianças pretinhas brincam de pega-pega. Sorriem tão bonito que dá gosto. E quando a mais pequenina alcança a mais alta, diz: “tá com você”, e depois se vira, rindo, a correr em gostosa sensação de uma perseguição lúdica, passa-me às costas três cavalos da polícia militar à espreita de confusão e desordem. Quando me volto a rever as crianças, estas já se foram. Vou então, atrás dos policiais e dos cavalos. São belíssimos, os cavalos! Pêlos bem tratados, esbeltos, mui bem alimentados, certamente. Melhor do que muita gente. É preciso ser forte para combater o crime, sim senhor. Passamos juntos em meio à uma multidão de gente que moram nas ruas da cidade ou em pensões e cortiços absolutamente abandonados. É difícil crer que há gente que more ali. Uns tomando banho na calçada, uns comendo restos de uma marmita que, pelo aspecto, não há de fazer muito bem ao estômago dos cristãos. Mas quê! A fome acaba com qualquer preceito religioso ou nojo. Isso é para os cristãos burgueses. Estes que menciono são da Ordem de Jesus Cristo dos Desamparados, muito conhecida no mundo contemporâneo e que consegue a cada dia mais adeptos. Muitos se voltam a admirar os cavalos policiais. Mas não atrevem-se a chegar muito perto. A experiência, a memória e o bom senso há de lhes assegurar certa segurança quando o impulso de tocar algum belo animal lhe cai no espírito. “É melhor manter-se afastados – diz o bom senso – um coice destes pode mandá-los aos diabos!”

A placa da rua que subo diz: Rua Helvétia. É nela que moram estes homens, estas mulheres e estas crianças. Sigo em frente ao tempo em que os cavalos são constrangidos a virar à direita, na direção de algum trabalho mais condizente com seu treinamento. É que lá embaixo, num lugar que hoje não quis conhecer, está um amontoado de gente que se interessa não somente em comer as comidas que lhe caem ao colo, banhar-se em águas amarelentas ou coçar suas feridas físicas e espirituais, sangrando-se integralmente, mas que faz algum barulho como que vozes levantadas contra um sujeito que há muito vem apontando uma espada semelhante à de Caxias, cortando fundo as veias da cidade e a fazendo perecer em sua própria constituição. Uns o chamam o Prefeito!

Estes que fazem murmurinhos são as moscas espantadas pela espada flamejante de Caxias. E reúnem-se, consoladas à porta da Igreja da Ordem de Jesus Cristo dos Desamparados que do alto da torre mais alta, os vela, sem alimentá-los.